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Historia das navegações na Região

SANTA CATARINA AO TEMPO

DAS GRANDES DESCOBERTAS MARÍTIMAS.

Cristóvão Colombo, navegando em nome da Espanha, descobria a América em 12 de outubro de 1492, alcançando-a na América Central, na Ilha de São Domingos.

 Imediatamente se movimentaram as cortes da Espanha e de Portugal, no sentido de estabelecer os direitos sobre as terras que se descobrissem no Ocidente. Dali resultou o Tratado de Tordesilhas, firmado em 6-7-1894, cuja linha veio eventualmente coincidir com o meridiano que corte por sobre a costa catarinense, até Laguna, de onde penetrava o Oceano.

 Pedro Álvares Cabral, a serviço de Portugal,  atingiu a costa brasileira em Porto Seguro (Bahia) em 22 de abril de 1500.

Não demorariam novas expedições marítimas, querem espanholas, quer portuguesas, para reconhecimento também da costa sul.

E assim, poucos anos depois, também Santa Catarina passou a ser conhecida, integrando-se na história.

 Do ponto de vista geopolítico três pontos da costa catarinense se destacaram como adequados aos primeiros acessos dos navegadores: Ilha de São Francisco, Ilha de Santa Catarina, Laguna.

Somente nos tempos adentrados do Brasil independente as entradas de rios se tornarão importantes. Várias frentes para o mar cederam sua importância para cidades formadas nas margens dos rios. Mas nunca perderam sua validade a Ilha de São Francisco, a Ilha de Santa Catarina, Laguna.

 A história da presença do homem no literal catarinense precedeu um século e meio ao povoamento propriamente dito. Somente em 1640 se presume tenha iniciado São Francisco (depois denominada São Francisco do Sul), em 1673 se dá início ao povoamento da Ilha de Santa Catarina, em 1684 ao de Laguna.

 No espaço cronológico de 1500 ao inicio do povoamento propriamente dito, se alternaram os aportamentos espanhóis e lusitanos, escrevendo uma pré-história com episódios dos mais interessantes. Não somente aconteciam aportamentos, mas também se alternaram moradores, que tempos em tempos se substituíam. Ora eram náufragos, ora desterrados dos navios, ora deixados com vistas a dar apoio aos navios em trânsito.

Santa Catarina estratégica. Embora ao tempo das grandes descobertas marítimas não houvesse de imediato ocorrido sua ocupação, Santa Catarina exerceu, contudo funções significativas, em virtude das quais assumiu a posição de região estratégica, integrando-se como peça representativa no todo maior da história do Atlântico Sul.

 Neste sentido não se trata apenas de uma pré-história, - ainda que em parte o seja, - mas também de uma efetiva história de Santa Catarina. Aliás, as mesmas razões - as estratégicas, - que motivaram o interesse inicial por Santa Catarina, serão as que de futuro influenciarão a criação da Capitania, em 11 de agosto de 1738, como primeiro governo regional estabelecido no Sul.

 Também é apreciável este primeiro período da história catarinense, pelo que ela muitas vezes contém de dramático e heróico. O sofrimento dos náufragos, a luta e a fome, o frio e o calor, as sucessões das derrotas e dos sucessos, - eis o que não pode ser esquecido, Somente em lembrar este passado dramático e heróico,  desperta o sentimento cívico daqueles que prosseguem desenvolvendo valores enraizados no passado.


APORTAMENTOS DESCOBRIDORES.

Quem os primeiros na costa catarinense, - os portugueses, ou espanhóis? Por mais paradoxal que pareça,  foi o barco francês de Binot Paulmier de Gonneville o primeiro a nos deixar notícias detalhadas sobre um aportamento em Santa Catarina, e que ocorreu em 1504 na Ilha de São Francisco.

 Todavia, especulativamente, podemos determinar que já antes portugueses e espanhóis por aqui passaram, ainda que não tenham deixado notícias tão claras quanto às que deixou o meticuloso francês.

 Além disto, a presença do francês foi pouco mais do que episódica ao passo que os portugueses e espanhóis aqui arribavam com propósitos definidos e aos quais deram continuidade.

 Por mais de um século, uma sucessão de episódios não muito coesos entre si, tecem a história de Santa Catarina, numa seqüência didática de parágrafos.

 

Aportamentos espanhóis, a partir de 1516  

O extremo sul do País teve uma evolução tardia comparada à que mais cedo ocorreu em São Paulo, Rio de Janeiro e Nordeste.

Por algumas décadas, desde a malograda expedição Juan Diaz de Solis (1516), houve um predomínio da presença espanhola na costa catarinense. Houve mesmo uma população flutuante. Alguns destes episódios deixaram uma documentação apreciável.

 Pode-se ordenar os acontecimentos em torno dos aportamentos espanhóis, centralizando a figura de Sebastião Caboto, o qual deu nome à Ilha de Santa Catarina. E então ocorre uma ordenação didática dos aportamentos espanhóis antes de Caboto, de 1516 a 1526, seguida do parágrafo sobre o mesmo Sebastião Caboto, que atua de 1526 a 1530. Seguem os parágrafos, para o que vier depois de Sebastião Caboto.

 Neste quadro se destaca primeiramente a malograda expedição de Juan Dias Solis (1516), com seus náufragos fundando uma população flutuante na costa catarinense. Segue o episódio curioso de Sebastião Caboto (1526) na Ilha de Santa Catarina. De novo na década de 1540 um seqüencial de episódios atrai o historiador, como aqueles do Governador Cabeza de Vaca, que deixou um relato; de alguns frades franciscanos, que enviaram cartas; do aventureiro alemão Hans Staden, com um apreciável documentário, inclusive com um mapa ilustrada da Ilha de Santa Catarina e continente fronteiriço.

 A documentação das expedições para o Atlântico Sul, por parte dos espanhóis, é abundante, porque a Casa de Contratação (Casa de la Contractación) de Sevilha tomava amplos depoimentos dos navegantes após suas expedições;. Quando não restam relatos diretos, como é o caso de Juan Dias Solis, as de outros oferecem informações sobre as precedentes.

 A tentativa de povoamento pelos espanhóis durou cerca de 30 anos, enquanto o interesse português estava concentrado na Índia. Depois do que passaram os espanhóis a preferir Buenos Aires, enquanto os portugueses iam se deslocando na direção da costa catarinense, sobretudo pela ação bandeirante.

 

Juan Diaz de Solis, ano 1516.

Considera-se primeiro aportamento claramente conhecido de espanhóis na Ilha de Santa Catarina, o dos homens de Juan Dias de Solis, descobridor do rio da Plata. Contato foi provável na idade, mas de certeza no retorno, mas então já sem o chefe.

A serviço da Espanha acredita-se que de Solis fosse um português de Oviedo. Segundo Medina e outros, de Solis seriam mesmo espanhóis. Nascido talvez em 1474, teria tido cerca de 40 anos ao se fazer de vela em 8 de outubro de 1515, de San Lucas,  com vistas ao Rio da Prata, onde efetivamente chegou, já em 1516.

A expedição de Solis veio com três caravelas toscas e de pouco calado, e tão somente 60 homens. Ora isto era muito pouca gente para conquistar um país onde os índios eram bastante representativos!

 Considerado o descobridor do Rio da Plata, de Solis ali desceu à terra com alguns homens, para não mais retornar com vida. Alcançados que foram desprevenidos pelos naturais, foram mortos. O rio La Plata, cujo nome lembra que por ele se buscava descobrir as minas de prata, foi por muitos denominado rio de Solis, lembrando seu infeliz descobridor.

 Em conseqüência da morte do chefe Juan Diaz de Solis, assumiu o comando da flotilha o piloto Francisco de Torres, que bateu de retorno.

 Uma das embarcações, que era um galeão, com 15 homens, dos remanescentes da expedição, agora no comando de Francisco de Torres, bateu na costa catarinense, afundando. Onze sobreviventes se instalaram em terra, em caráter mais ou menos permanente, havendo tomado contato com futuras outras expedições espanholas.

 

 Levando em conta o contexto geral da malograda expedição de Solis, resta determinar se ela já teve contato anterior com esta costa e o que mais aconteceu depois do retorno.

  Não há elementos suficientes para estabelecer que tenha aportado na Ilha de Santa Catarina no trânsito para o Sul. Mas era óbvio que o fizesse. O antigo texto de Herera, ao se referir à chegada à Cananéia, continua dizendo apenas: "e dali tomaram a derrota para a ilha que disseram de La Plata, fazendo o caminho de sudoeste e surgiram em uma terra que está em 27 graus da linha, à qual Juan Diaz de Solis chamou a Baía dos Perdidos".

 Supõe-se que Herera houvesse tido acesso a algum documento direto ou indireto dos embarcados, e que já não mais existem. Não passa entretanto de um equívoco de historiadores recentes, falar em um Diário de Juan Diaz Solis.

 Com referência ainda ao nome de Baía dos Perdidos, ele é uma possível menção aos homens de Solis, que retornaram do Prata para a costa de Santa Catarina. Mas, neste caso não teria sido o nome criado pelo mesmo Solis, porquanto perecera no mesmo Prata.

 E a ilha de La Plata? Na verdade, a referência dos 27 graus confere com a Ilha de Santa Catarina, que, extremidade Norte, em Ponta do Rapa se encontra em 27-o 22' 31''. No contexto da frase a ilha de La Plata poderá ser mesmo a Ilha de Santa Catarina "onde surgiram em uma terra que está em 27 graus...".

 O aportamento na Ilha de Santa Catarina por parte de Juan Diaz de Solis é admitida por autores antigos, como Paulo José Miguel de Brito (1816) e Saint- Hilaire. Este chega mesmo, logo no começo de sua I Viagem à Província de Santa Catarina, que ela foi "descoberta pelo navegador Solis, em 1515".

 O chileno José Toríbio Medina foi quem ergueu a suposição de se tratar de São Francisco. A esta opinião de Medina aderiu Lucas Boiteux.

 

O começo de uma população espanhola flutuante.

A ocupação européia da costa catarinense não se deu por uma guerra de conquista declarada ao índio. Aconteceu um quase mútuo consentimento de brancos e carijós, à base de mútuas vantagens, e que resultou na miscigenação total final.

 Embora os primeiros espanhóis instalados na costa catarinense tivessem uma vida própria, ficou conhecida quase apenas pelo seu relacionamento com os que então aqui aportaram.

 Paralelamente, em São Vicente, desde cerca de 1510, haveria outros primeiros moradores nestas mesmas condições. Lá ocorreu a evolução imediata do povoamento. Aqui fora necessário aguardar mais de um século, para que o povoamento se desse definitivamente.

  Onde teriam ficado exatamente os 11 náufragos da expedição de Solis, e que deram início à precária presença branca na costa catarinense?

 Ao que mostram as futuras andanças dos mesmos, - conforme referências de navegadores posteriores, - esta população ficou primeiramente na região continental ao Sul da Ilha de Santa Catarina, em contato freqüente com os navegadores que arribavam nesta mesma Ilha. Esta população constituída primeiramente dos náufragos de Solis e acrescida depois de outros personagens foi basicamente móvel, ainda que tenha um pouso principal.

 Mais especificamente os náufragos de Juan Diaz de Solis se encontram inicialmente cerca de 12 léguas ao Sul da Ilha de Santa Catarina, portanto em área marcada pela enseada de Garopaba e pelo ancoradouro de Imbituba. Dali até a Baía Sul da Ilha de Santa Catarina, - num espaço de cerca 80 quilômetros operam estes homens que ficam em caráter mais ou menos permanente na costa de Santa Catarina.

 

 Exerceram a população espanhola flutuante da costa catarinense funções apreciáveis em relação à navegação. Como em geral os aportamentos se davam então na Baia Sul, da Ilha de Santa Catarina,  tais homens podiam vir até a mesma sempre, quando percebiam a presença de navios.

 No futuro houve  também aqueles que se estabeleceram nas mesmas baías da Ilha de Santa Catarina, como se verá quando do episódio descrito por Hans Staden. A própria andança de Hans Staden na direção de Laguna ( Biaça ), prova esta mobilidade entre a Ilha e o Sul próximo.

 Uma vez que a Baía dos Perdidos é uma denominação que se pretende ligada à gente de Juan Diaz de Solis, é forçoso em admitir que a Baía em questão está mais ao Sul da Baía formada pela Ilha de Santa Catarina.

 Como se sabe, - cerca de 12 léguas estavam estabelecidos ditos refugiados com suas casas, e de onde vieram ao encontro de Don Rodrigo de Acuña. Em função a este  aportamento de março de 1526, um ponto destes recebe a denominação de Porto de Don Rodrigo.

 Os náufragos de 1516, que se movem no Continente e na Baía de Santa Catarina, tornam-se uma população semi-integrada com a dos indígenas. E aumenta ou se alterna com outros indivíduos provenientes dos aportamentos posteriores, de que se conhecem os de Cristóvão  Jaques (1521), Don Rodrigo de Acuña (março de 1526), Sebastião Caboto  (novembro de 1526). Os aportados residentes se acomodam aos processos de plantio existentes, da mandioca, da abóbora, além de participarem da caça e pesca dos indígenas. Casam mesmo com mulheres indígenas. Contatam capelães das armadas para batizarem seus filhos.

  A facilidade com que se moviam nesta costa e pelo seu passado de marinheiros, os moradores brancos serviram muitas vezes como práticos das armadas. Alguns são reencontrados depois em outras partes do Brasil, do Plata, mesmo de Portugal e Espanha. Alguns não retornarão à Pátria, outros sim mas para de novo voltarem à América. Outros morreram, mas, à medida que alguns saem ou morrem, são substituídos pôr outros e outros.

 Foram mais numerosos até 1536, quando Gonzalo de Mendoza, que viera em busca de recursos alimentícios na Costa de Santa Catarina, os levou quase todos.

 Depois disto continuara a haver algum branco nesta Ilha. Em 1549, conforme já se adiantou, ao aportar nela Hans Staden, encontrou-se com um biscainho, associado aos índios para facilitar os abastecimentos aos navios. Um dizer, inscrito ao pé de uma cruz, em Acutia (Estreito), mandava que o navio interessado desse um tiro para se anunciar e ser logo atendido.

 

Don Rodrigo de Acuña - ano 1526.

  O aportamento de Don Rodrigo de Acuña na Ilha de Santa Catarina se deu  em 26 de março de 1526, no galeão São Gabriel, de 130 toneladas. Foi quando pouco depois afluíram 2 dos 11 náufragos de Solis aqui estabelecidos, aos quais  aderiram outros 17 quando do retorno do Galeão São Miguel.

 A embarcação de Don Rodrigo fora parte de uma expedição maior, de sete unidades, do comando superior de Don Francisco Garcia Jofré de Loaysa, com destino a Molucas (na rota de Fernando de Magalhães de 1519), com partida a 24 de dezembro de 1525, tendo como piloto mor João Sebastião Elcano, um circum-navegador do mundo.

 Desgarrando com o temporal de 28 de dezembro de 1525, Don Rodrigo de Acuña, em seu galeão S. Gabriel, de 130 toneladas, fundeava finalmente ao sul da Ilha de Santa Catarina, em março de 1526 à Ilha de Santa Catarina. Não se sabe se foi diretamente ao sul da Ilha ou mais ao sul.

Em função ao contato estabelecido alguns dias depois com os náufragos de Solis, houve negócios e inclusive batizados dos seus filhos, resultantes do convívio com as índias carijós.

 Ao porto em que esteve o navegador Don Rodrigo referiu-se depois Caboto como sendo o Porto de Don Rodrigo, cujo nome se conservou algum tempo e sobre cuja localização controverte os autores, podendo ter ido até Garopaba e Imbituba.

 Numa carta posteriormente de 15 de julho de 1527, quando já em viagem de retorno e em Pernambuco, escreveu: "Aportava à Baía dos Patos, a 28 graus, onde fizemos água e lenha, nos refrescamos com galinhas e patos. Em 15 dias nos provemos de tudo".

 

 No momento de sua chegada, não se encontravam nesta baía dos Patos os náufragos, tendo vindo depois. Um outro tripulante completou a informação, dizendo das circunstâncias em que isto se dera. Esclareceu que o local em os referidos náufragos se encontravam estabelecidos distava 15 léguas, mas em contato com a baía dos Patos, tanto que souberam noticias da presença do navio de Don Rodrigo, escrevendo, em conseqüência, uma carta cujo portador foi um índio:

 "Estando tomando água, veio um índio que trazia uma carta que enviavam uns cristãos, em que diziam a carta como lhes haviam dito os índios que estava ali a nau, que lhes descem resposta disto. Don Rodrigo enviou ao contador da nau para que falasse com os cristãos. Ao cabo de três dias veio um homem deles com o dito contador e disse a Don Rodrigo que havia dez cristãos que se haviam perdido ali com um galeão, que haviam ficado quatro deles, e que havia ali feito sua estadia: e que sua mercê mandasse baixar a nau perto de sua casa que eram 15 léguas que lhe dariam abastecimentos e resgataria certa prata e metal que tinham; e Don Rodrigo moveu-se com a nau para o porto onde o cristão vivia, e Don Rodrigo enviou à terra o contador e tesoureiro para que assentassem em uma casa onde resgatasse com os  índios;  e o clérigo da nau foi a fazer cristãos a certos filhos que tinham aqueles cristãos ...

 Vieram depois apresentar-se dois dos náufragos, dos quais um era Henrique Montes. Na carta primeiramente citada, de Don Rodrigo, ainda se diz:

 "Neste tempo vieram ali dois espanhóis dos que iam com Solis, de um navio que ali se perdeu, e me disseram que ali estavam outros nove companheiros e que eram idos à guerra, e me venderam trinta quintais de farinha, e 4 quintais de feijão e bebida para um mês e outros refrescos. Já pronto para ir a Maluco, mandei dizer missa, e nela, em mãos do sacerdote, fiz jurar a todos que bem e fielmente serviriam a S.M. e cumpririam a viagem".

Continua o texto relatando os detalhes do motim que se seguiu:

O contato com os de terra deu esperanças aos homens de Don Rodrigo a preferirem ficar, a arriscar os mares perigosos do Pacífico.

  Não foram os de terra que os estimularam a ficar, porquanto estes fizeram ver aos marujos que deviam continuar a servir sua Majestade.

  O tiro de lombarda, para advertir aos que se haviam passado para a terra que retornassem, não deu resultado.

 Quinze homens que afinal vinham de retorno morreram, ao afundar o tal batel no qual vinham.

 Outros não 17 não retornaram mais. Antes que novos se amotinassem, Don Rodrigo levantou ancoras e partiu, todavia já não para Molucas, mas de retorno a Portugal, onde, contudo não chegou, porquanto naufragou na costa de Pernambuco.

 

Cresce a ação da população espanhola flutuante.

  Em estado de crescimento o número dos valentes homens que desde 1516 formam a população flutuante da costa de Santa Catarina, conhecem-se os nomes de vários deles e dos seus feitos. De alguns até se tem alongada biografia, acontecida  nos mares da América.

 Nomes, que se conservaram: Melquior  Ramirez, Enrique Montes, Francisco Pacheco, Aleixo Garcia, Francisco Fernandes, Duarte Perez, Francisco Chavez, Gonçalo da Costa, Fulano Sedenho.

 Melquior Ramirez era espanhol, no posto de alferes. Nesta condição devia ter idade madura e experiência para servir de prático na pilotagem dos navios. Voltando a Espanha retornou como escrivão da armada de Pedro Mendoza (1535). Nesta oportunidade, como veremos Gonzalo Mendoza, irmão do precedente recolherá muitos dos moradores de Santa Catarina.

 Henrique Montes, português de apenas 17 anos, ao arribar em 1516, sabia escrever e fazer contas. Era marinheiro de ofício. Retornará a Portugal, de onde novamente volta ao Brasil em 1531 a serviço de Martin Afonso se Sousa.

 Francisco Pacheco, sendo negro, talvez fosse um empregado de bordo.

 Gonçalo de Costa e Francisco Gonçalves, mais tarde casarão com as filhas de famoso bacharel deportado em Cananéia. Sobretudo Francisco Gonçalves prestará serviços aos navegadores de trânsito ao Plata.

 Francisco Chaves, em 1531, apresenta-se em Pernambuco a Martin Afonso de Sousa; agora é casado com a filha do mestre Cosme Fernandes Pessoa, que também se apresenta em Pernambuco a Martin Afonso de Sousa.

 Dentre estes os primeiros residentes da costa catarinense particularmente se destacou o jovem português Henrique Montes, como perfeito lidador entre os naturais da terra.

 Depois de servir a Caboto e Diego Garcia, em 1526, quando estes aportavam na Ilha de Santa Catarina, retornou a Portugal. Serviu ainda em 1531 na expedição de Martin Afonso de Sousa.

 Pela sua bem marcada serviçalidade e cosmopolitismo foi Henrique Montes uma antevisão do tipo Catarinense futuro, que se estabelecerá por esta costa atraído por causa de seus encantos. Diz Caboto haver ele dissuadido aos índios de não comerem carne humana, no que teria sido bem sucedido. Talvez houvesse um exagero nesta observação; mas ela diz pelo menos algo sobre a influência já então dos brancos sobre os usos dos carijós, que por isso mesmo já então entraram no processo de miscigenação.

 

 Os 17 homens a abandonarem Dom Rodrigo constituem a segunda leva a permanecer em terra. Entre outros, são alguns deles:

 Sebastião Villa-Real, contra mestre;

  Miguel Ginovez, que esteve unido com uma índia e foi finamente trucidado;   Martin Viscaiño, marinheiro, depois mandado enforcar por Sebastião Caboto;

ainda os marinheiros, Luiz de Leon, Pedro de Aya, o italiano Nicolau Canon;  pôr último ainda se conhece o nome de um tal Durango.

  A presença de uma população branca na Ilha introduz hábitos e habilidades semi civilizados entre os índios carijós. Há mesmo os que se deixam conduzir à Espanha, como foi o caso de um certo Pedro e de certa Maria, que motivou o interesse do Rei, que manda aproveitar os índios que se encontrassem como elementos valiosos de informação, como se vê nos documentos relativos a Caboto e depois dele.

 

Sebastião Caboto na Ilha de Santa Catarina - 1526. 

  O aportamento do Capitão General Sebastião Caboto, em 19 de outubro de 1526, na Ilha de Santa Catarina, foi talvez o primeiro efetuado intencionalmente.

  Primitivamente a expedição se destinava às Molucas (no contexto da atual Indonésia), no Pacífico, e nesta condição saía de Gualdaquivir, da Espanha em 3 de abril de 1526, com três naus e uma caravela, com uma tripulação total de 220 homens.

 Ao chegar em Pernambuco, em junho, encontra ali uma feitoria, que a expedição de Cristóvão Jaques (vd 29) havia estabelecido em Iguarussu, guarnecida de 12 homens sob chefia de Manuel Braga. Ora, por ali transitavam as noticias facilmente, mesmo porque Cristóvão Jaques estivera na ilha de Santa Catarina em 1521.

 E agora em 1526 apenas estava de volta da mesma Ilha o galeão São Gabriel de Don Rodrigo de Acuña (vd 30), que aliás então naufragava na costa de Pernambuco. Todos traziam noticias de presença de metais preciosos no interior do continente, supondo-se que fosse nas nascentes do rio Plata, o que se poderia alcançar também pelo interior do continente a partir de Santa Catarina.

 De próprio arbítrio, Caboto alterou os planos da viagem, desistindo das Molucas, para explorar o Atlântico Sul, o que efetivamente fará por quatro anos. Rumou a 29 de setembro de 1526, com destino direto para a Ilha de Santa Catarina, tendo como pratico, Jorge Gomes, um Português degradado.

Alcançou a Ilha de Santa Catarina pela Baía Sul em 21 de outubro de 1526. Aliás  ele mesmo daria o nome à Ilha, a que agora chegava.

 

 Fontes históricas do tempo de Caboto. Deve-se ao afamado navegador Sebastião Caboto uns grandes elencos de informações sobre a terra Catarinense e seus índios, complementam as referências já feitas anteriormente pelo  francês Goneville (vd 22), que estivera na Ilha de São Francisco em 1504.

 Os episódios decorridos sob Caboto e que se fixaram em diversos documentos, não só tem uma significação própria, como ainda despertam o interesse peculiar que possuem pela condição de serem os primeiros a documentarem mais amplamente a fisionomia da Ilha, dos seus índios, dos homens brancos nela precariamente estabelecidos. Falam também da origem do nome da Ilha de Santa Catarina, e que mais tarde passou a ser também o nome de toda a região, hoje um Estado.

 

Caboto fundeado na Baía Sul.

 Teve Caboto a sorte de ainda no mesmo dia da chegada à Ilha de Santa Catarina, em 21 de outubro de 1526, ser visitado por uma canoa de índios noticiando a presença de cristãos na costa.

Caboto fez agrados aos índios com presentes.

Dia 22 vieram a bordo um dos desertores de Don Rodrigo de Acuña esclarecendo que são quinze companheiros ali estabelecidos desde seis meses.

Orientado ainda por este, que há algumas léguas estavam dois náufragos da expedição de Juan Diaz de Solis, mandou um grumete, Antão Falcão, chamá-los.  Assim aconteceu chegarem dia 23 a bordo, pela manhã, o português Henrique Montes, de tarde o Espanhol Melquior Ramires.

O jovem português narrou sua situação com lagrimas nos olhos, ao mesmo tempo em que falou de grandes riquezas no rio Plata.

O espanhol ainda faz ver que fora piloto e interprete da língua indígena em viagem com Cristóvão Jaques de ao rio Plata.

 

 Em que ponto fundeou Caboto na Baía Sul? Não obstante, haver um conselho reunido por Caboto opinado contra o plano de empreender a busca dos materiais preciosos, decide ele mesmo a empreitada.

Neste sentido resolveu também entrar na Baía Sul, entre a Ilha e o continente, a fim de melhor abastecer-se de água e alimentos, como ainda para construir um novo batel, da nau capitânia.

 Pretendia continuar a viagem ainda em outubro de 1526, após uma semana. Isto não pôde acontecer, tendo que se demorar até fevereiro do ano seguinte, com vistas a também construir um galeão, porquanto perdera no mesmo entrar na barra da Baía Sul a nau capitânia.

 Este objetivo evidentemente reclamava a escolha de um lugar adequado. Provável então que avançasse mais pela Baía e fosse até um estreito, denominado Jurerêmirim, porque era o ponto do ajuntamento indígena, para se instalar pelo lado da Ilha, junto a um monte, como se depreende da carta de Luiz Ramirez.

 

 Fundeou Caboto preliminarmente antes da entrada na Baía Sul. Pode-se imaginar que este primeiro fundeamento ocorrera  junto às ilhas hoje conhecidas por Três Irmãs ou próximas a estas.

Infere-se este local a partir do texto "Relaciones de probanzas en el pleito entre Sebastião Caboto e Catalina Vasquez",  em que a 6a. pergunta é formulada assim:   "... se sabe que dito Sebastião enviou a Miguel de Rodas piloto da nau a sondar a Ilha de Santa Catarina e a terra firme para que observassem se havia lugar para levar as naus em um bom porto, porque estavam entre três ilhas pequenas que estavam junto à dita ilha de Santa Catarina, porque havia de fazer um batel para a nau capitânia, porque perdeu a que tinha em Cabo Frio com uma grande tormenta".

As ilhas chamadas Três Irmãs ficam na enseada oceânica do Pântano do Sul, e por isso um tanto pelo lado Atlântico da Ilha de Santa Catarina.

Pode-se também pensar em uma ilha das Três Irmãs, combinada as duas ilhas chamadas dos Papagaios. Agora tudo fica na mesma embocadura da barra da Baía Sul.

 

 O segundo e definitivo fundeamento foi mais dramático, com episódios sucessivos.

 Ao entrar na barra, a nau capitânia Santa Maria de la Concepcion, já sem batel, deu num baixio, quando se perdeu em 28 de outubro. Mas foi  salva a tripulação como também parte do carregamento.

 Não obstante do que acontecera, Caboto houvera tido o cuidado preliminar de mandar examinar a barra. É o que consta de várias declarações, que responderam ao seu mesmo questionário (feito por Caboto) de 27 de agosto de 1530, ao arrolar testemunhas, do que assevera nas perguntas.

 Se sabe que, chegado o Capitão geral à boca do dito rio, mandou ao piloto Manuel de Rodas que surgisse, porque o vento era contrário e a corrente era muita, que se receava que haviam de dar sobre uns penhascos que estavam ali perto, e que o dito piloto Miguel de Rodas e mestre Anton de Grajeda haviam sondado por tudo; e que estando nesta prática, deu a nau capitania em um baixo e se perdeu, por o que pareceu claro que o dito piloto Miguel de Rodas nem Anton de Grajeda não haviam sondado como disseram.

 

 Quase 4 meses na Ilha de SC. Em conseqüência do desastre do navio capitânia, resolveu Caboto estabelecer-se com mais delonga, para construir não só um batel, mas ainda uma galera, à qual deu o nome de Santa Catarina, como ainda à mesma Ilha.

 Com exatidão onde teria fundeado definitivamente? Em qualquer enseada da Baía  Sul, onde se possa imaginar ter podido dedicar-se à construção e estar em contato fácil com os naturais da terra. Por razões óbvias, conforme já adiantamos, deveria ser nas imediações de Jurerêmirim.

 Neste sentido colocou os marujos a armar casas, igreja, serraria e pôs em serviço os próprios índios em troca de dádivas. Tudo isto fez pela banda da Ilha, e não pela do continente, como se infere da carta de Luiz Ramirez (vd) , que foi onde já havia algumas casas indígenas, havendo depois afluído mais índios, que ali se instalaram como contratados.

 Henrique Montes cooperou largamente com Caboto. Dentre os brancos que se encontravam entre os índios é o primeiro a apresentar-se. Coordenará os índios, fazendo-se cortar madeira e fabricar; carvão para as fráguas. Fez relatórios destes negócios com os índios.

 Tinha Montes em mãos, e que mostrou a Caboto, amostras de ouro do rio de Solis. Montes será útil na continuação da viagem para o rio de Solis. Retornará à Europa com Caboto, de novo para o Brasil com Martim Afonso de Sousa.

A galeota a fabricar-se, com 20 bancos, devia ser de pouco caldo, com o fim de operar com facilidade na penetração do rio Paraná.

 A obra de carpintaria da galera levou 40 dias. Não se chegou a calafetá-la, em vista de haver adoecido a tripulação de uma febre, de que entretanto não morreram senão uns três ou quatro, - na informação de Luiz Ramirez,-  sete ou oito, - nas de outros depoentes.

 

A partida se deu em 9 de fevereiro senão 10 ou 12 ou mesmo 15, como expressa claramente a carta de Luiz Ramirez e se infere das últimas diligências feitas no dia 14.

 Atritos fizeram com que Caboto deixasse desterrado na Ilha o fidalgo Francisco de Rojas, o piloto Miguel de Rodas, o tenente Martin Mendez. Aos três lhes deixou vinho, biscoitos, pólvora, roupas e outras coisas que solicitaram, além de recomendá-los a um índio principal de nome Topavera. Somente o Primeiro, Francisco de Rojas, retornará à pátria, recolhido mais tarde por Gonçalo da Costa.

 Caboto também castigou e enforcou. No processo que depois respondeu em Sevilha, constam as circunstâncias, conforme ata de 28 de julho de 1553:

"Perguntado, que pessoas enformou, e açoitou, e desorelhou e fez outras justiças delas na dita viagem e que causas teve para o fazer,

disse que enforcou a um da armada de Loaysa, que deu em terra, que ao presente não se recorda do nome, salvo que era biscainho, e que o enforcou, porque entrou em casa de um índio e o maltratou e o feriu, e lhe furtou uma canoa e tomou duas índias da dita casa a força e lhe tomou certas placas de metal e outras coisas que havia feito, e que no presente não se recorda, que se refere ao processo, que se queimou com as outras coisas que dito tem;

 e que assim mesmo enforcou a Francisco de Lepe, criado do contador Montoya, como principal movedor de um motim de 30 homens que se queriam juntar com os índios.

 Teria Caboto também levado alguns índios, o que Diego Garcia diz ter sido a força.

 Quanto ao mesmo Caboto, ao retornar de suas explorações sem resultado, no Plata, aportará ainda em Tijucas, no ano de 1530.

 Depois de responder às acusações que lhe foram feitas na Espanha, passou finalmente ao serviço da Inglaterra. Mais uma vez se fez notável, como descobridor que foi da Califórnia.

Nascido em 1472, em Veneza, faleceu em 1557.

 

Carta de Luiz Ramirez, de 10-07-1528, referente á Ilha de SC.

  Pertence ao documentário geral relativo a Sebastião Caboto, - quando de sua estadia na Ilha de Santa Catarina, de outubro de 1526 a fevereiro do ano seguinte, - parte de uma longa missiva com a data de 10 de julho de 1528, que descreve a Ilha de Santa Catarina e os acontecimentos que nela estão sucediam, escrita por Luiz Ramirez, enviada a seu pai, tudo depois de haver saído a armada da Ilha de Santa Catarina e chegado a San Salvador em Rio La Plata.

 A carta de Luiz Ramirez representa para a Ilha de Santa Catarina algo similar à de Pedro Vaz Caminha, de 1500, com referência ao Brasil. Era Luiz Ramirez pessoa bem informada e que viajara com o próprio Sebastião Caboto, na Capitânia, que naufragou na naufragara na Baía Sul da Ilha de Santa Catarina.

 

 A carta, depois de narrar o aportamento em Pernambuco e referir-se às bondades dos moradores e aos indígenas daquelas costas nordestinas, descreve ainda longamente na qual se perdeu um batel, que motivou o aportamento na Ilha de Santa Catarina, para finalmente abordar os acontecimentos aqui acorridos.

 

 Texto: “As naus desfizeram-se de alguns objetos inúteis para dar lhes alívio. A nau capitania perdeu o batel que trazia na popa.

 A tormenta, da maneira como tenho dito, e muito pior, nos durou toda a noite até domingo. Amanheceu o dia com muito e bom sol como se não houvesse passado nada, e assim andamos até que sexta feira seguinte, dezenove do dito mês (de outubro), chegamos a surgir em uma Ilha através a uma grande montanha, por que parecera ao Capitão General ser aparelhada de madeira para fazer batel para a nau capitania, porque, como digo, na tormenta passada havia perdido o seu.

 

 E estando nisto, vimos vir uma canoa de índios, a qual veio à nau capitania, pôr sinais no deu a entender que havia ali cristãos. O que ainda não acabado de entender, o senhor Capitão General lhes deu a estes índios algum resgate, os quais foram muito contentes.

 Estes índios, segundo parece, foram por terra adentro e deram novas de nossa vinda. De maneira que, outro dia de manhã, vimos vir outra canoa de índios e um cristão dentro dela.

 Este deu novas ao Sr. Capitão General como estavam naquela terra alguns cristãos, que eram até quinze, os quais haviam ficado da nau em que iam a negócio (à la especiaria) em que ia por Capitão General o Comendador Loaysa, e aqueles iam em uma nau em que ia como Capitão Don Rodrigo de Acuña, e porque a dita armada se havia desbaratado no Estreito e eles não quiseram volver  à Espanha, seu Capitão os havia deixado ali.

 E também disse de outros cristãos, que se diziam Melchior Ramirez, vizinho de Lepe, e Enrique Montes, os quais disseram haviam ficado de uma armada de Juan de Solis, que neste rio (de onde Luiz Ramirez está escrevendo sua carta) onde agora nós estamos os índios haviam morto e desbaratado, e que havia mais de treze ou quatorze anos que estavam naquela terra e que estavam doze léguas dali, os quais ditos cristãos, como dos índios souberam estar ali à armada de cristãos.

 

 E logo o Enrique Montes veio à nau capitânia, e falando em muitas coisas com o Sr. Capitão General de como haviam ficado naquela terra, vieram a dizer o que dito tenho; e como também  a grande riqueza que naquele rio onde mataram o seu Capitão havia, do que por estar mui informados por causa de sua língua dos índios da terra de muitas coisas, as quais direi aqui algumas delas;

e era que, se o queríamos seguir, que nos carregaria as naus de ouro e prata porque estavam certo que entrando pelo rio de Solis, iríamos a dar em um rio que chamam Paraná e outros que a ele vêm a dar iam confinar em uma serra havia muita maneira, e que nele havia muito ouro e prata, e outro gênero de metal, que aquele não alcançava que metal era, mas de quanto ele não era cobre, e que todos estes gêneros de metal havia muita quantidade, e que esta serra atravessava pela terra mais de duzentas léguas, e na fralda dela havia assim mesmo muitas minas de ouro e prata e outros metais.

 E este dito dia sobre a tarde veio à mesma nau capitânia, seu companheiro; porque ao tempo que souberam da nossa vinda, não estavam juntos, e como cada um o soube, pôs-se a vir. Este também disse muito bem da riqueza da terra; disse haver estado no rio de  Solis como língua de uma armada de Portugal.

 

 E o Capitão General, para mais se certificar da verdade  disto, lhe perguntou se tinham alguma amostra daquele ouro e prata que diziam, ou outro metal que diziam, os quais disseram ficaram ali sete homens de sua armada, sem outros que por outras partes se haviam apartado, e que destes eles dois só haviam ficado ali  estando na terra;

 e os demais vista a grande riqueza da terra, e como junto a dita serra havia um rei branco que trazia bar... (rasgado) vestidos como nós, se resolveram ir lá; para ver o que era, os quais foram e lhes enviaram cartas;

 e que ainda não haviam chegado às minas, mas já haviam tido palestra com uns índios próximo à serra e que traziam nas cabeças uma coroa de prata e umas pranchas de outro penduradas ao pescoço e nas orelhas, unidas por cintos, e lhes enviaram doze escravos e as amostras do metal que tenho dito, e que lhes faziam saber como naquela serra havia muita riqueza e que tinham muito metal recolhido, para que fossem lá com eles, os quais não se quiseram ir, porque os outros haviam passado por muito perigo por causa das muitas gerações que pelos caminhos que haviam de passar havia;

 e que depois haviam recebido novas que estes seus companheiros, retornando aonde eles estavam, uma geração de índios que se dizem os guaranis os haviam morto para tomar lhes os escravos que traziam carregados de metal, o que nos outros achamos agora por certo no que descobrimos pelo Paraná acima, como adiante direi a Vossa Mercê.

 

 E logo o Sr. Capitão General lhes disse ensinassem o que diziam lhes haviam enviado seus companheiros:

 os quais disseram que quatro meses antes, pouco mais ou menos, antes que chegássemos a este porto dos Patos, que assim se chamava onde se achavam, chegou ao dito porto uma nau na qual vinha por Capitão o dito Don Rodrigo que Vossa Majestade digo, ao qual deram até duas arrobas de ouro e prata e de outro metal muito bom, com uma relação da terra, para que o levasse a Sua Majestade e fosse informado de terra tão rica.

 E que ao tempo que se lhe entregou no batel para levá-lo à nau, o batel submergiu com o muito mar que havia, de maneira que se perdeu tudo, e que então se haviam afogado com o dito batel, quinze homens, e que ele escapou a nado com a ajuda dos índios que entraram por ele, que por isso não tinham metal algum, salvo umas contas de ouro e prata, e que por ser a primeira coisa que naquela terra haviam obtido o tinham guardado para dar a Nossa Senhora de Guadalupe as quais deram ao Sr. Capitão General, e as de ouro eram muito finas, de mais de vinte quilates segundo pareceu.

 E que se o Sr. Capitão General quisesse tocar em dito rio de Solis, que eles iriam com suas casas e filhos e nos mostrariam a grande riqueza que havia nele e o Sr. Capitão General respondeu que era outro o seu caminho.

 

 E, por causa da muita necessidade que havia de batel para a dita nau capitânia que lhes perguntou, se havia por aí perto alguma montanha onde houvesse boa madeira para o dito batel, e responderam que ali junto aonde estávamos surtos, atrás daquela montanha alta, havia muito bom lugar.

 E logo o Sr. General mandou ir a sondar a entrada e o porto a um piloto e a um mestre, as duas pessoas em tal caso mais sábias e de quem mais crédito neste caso se pudesse dar. Eles vieram ao dito canal e o sondaram.

 Voltados, disseram ao Sr. Capitão General como o haviam sondado todo, e que podiam entrar as naus muito bem e sem nenhum perigo: o que pareceu o contrário, porque como a nau capitânia se fez à vela de onde estava surta, no domingo de Simão e Judas, que foi aos vinte e oito de outubro do dito ano (1526), ao querer passar, para entrar para trás da montanha, a dita nau capitânia tocou num baixio, e logo se inclinou a uma banda de maneira que não pôde mais ir para trás nem para frente, vendo-nos em grande perigo de vida a todos os que vínhamos na dita nau, por andar o mar algo levantado.

 Mas implorei a Nossa Senhora de nos salvar, de maneira que nenhuma pessoa pereceu.

Todavia se salvou alguma parte do que nela vinha. Aqui perdi eu minha caixa com algumas coisas dentro, que me fizeram falta por haver-se alargado a viagem mais do que pensávamos. E logo o Sr. Capitão vendo a nave perdida, passou a outra nau, e dali, como digo, pôr muita diligência para salvar que nela vinha; mas, como digo a Vossa Mercê, não foi tanto quanto quiséramos.

 

 E logo o Sr Capitão General determinou de entrar-se no rio com as outras naus que lhe ficavam antes que as tomasse algum temporal, que lhes fizesse dano, e depois de entradas em dito porto e amarradas as naus como convinha, e logo o Senhor Capitão General cuidou de saltar em terra e pôr em obra o que havia resolvido fazer.

 Logo fez fazer certas casas em terra para que a gente, que da dita nau se havia salvado, se recolhesse.

 O Senhor Capitão General vendo a melhor nau perdida e muita parte do mantimento, e que a gente não se podia recolher nas outras naus, por ser muita, resolveu fazer uma galeota que deslocasse pouca água e que fôssemos em descoberta do dito rio de Solis, pois estávamos informados da muita riqueza que nela havia, porque nisto se fazia mais serviço a Sua Majestade que na viagem que levávamos da maneira que esperávamos ir.

 

 Esta Ilha era muito alta de arvoredo, havia nela cinco ou seis casas de índios, e depois que a ela chegamos fizeram muitas mais, porque da terra firme vieram muitos e fizeram suas casas.

Estes índios trabalharam muito, tanto para fazer casas para a gente como em outras coisas necessárias.

 Nesta ilha havia muitas palmeiras (palmos): neste porto nos traziam  os índios infinitivos abastecimentos, como faisões, de galinhas, e perus, patos, veados, antas, que disto tudo e de outras muitas espécies de caça havia em abundância, e muito mel, e outra coisas de mantimentos, o que tudo se resgatava pela mão de Henrique Montes, pôr saber a qualidade dos índios melhor que outros, por se haver criado entre eles.

 As frutas desta terra são muito pequenas e poucas: todo mantimento é como o de Pernambuco, e a gente da mesma maneira e condição, salvo que aqui as mulheres casadas trazem umas mantinhas pequenas de algodão, de maneira que não andam tão desonestas como as que acima disse.

 

Neste porto estivemos três meses e meio, dentro dos quais se acabou de fazer a galeota, ainda que antes se acabara de fazer senão enfermasse toda a gente, que era a terra enferma que a todos levou em sua rasura, que eu dou minha fé a vossa mercê que, segundo a gente que caiu de golpe, bem pensamos que perigara a maior parte; ali nos morreram quatro homens, e outros que saíram mal no seguimento de nossas viagem.

 A Juanico esteve aqui muito mal, e tanto em tanta maneira, que dou fé a Vossa Mercê que, pensei, se fosse o seu caminho; passei com o farto trabalho à falta do pouco refrigério que havia. Eu, graças a Nossa Senhora, me achei muito bem nesta terra que jamais cai doente, nem me doeu a cabeça nela; mas não me durou muito, porque faço saber a Vossa Mercê que no mesmo dia que deste porto de Santa Catarina que assim se lhe pôs nome  saímos, que foi tão grande a enfermidade que me deu, que bem pensei ter chegado ao fim.

 Assim que, senhor, depois de acabada a dita galeota, e recolhida toda a gente nas naus, com todos os cristãos que ali achamos, saímos com bom tempo do dito porto a quinze de fevereiro do dito ano de 1527, e de onde a seis dias seguintes chegamos ao Cabo de Santa Maria, que é a Boca do rio Solis... eu vim de Santa Catarina até aqui na galeota, e como minha enfermidade foi muito grande, e como nela havia muito pouco abrigo, passei infinitos trabalhos".

 (Depois de narrar a penetração pelo rio Paraguai, e a chegada de Cristóvão Jaques, conclui:) "assim permaneço neste porto de San Salvador, que é o rio Solis, a dez dias do mês de julho de mil quinhentos e vinte e oito anos. O humilde e menor filho que beija as mãos de Vossa Mercê - Luiz Ramirez”.